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A Fundação BRASILCAMPEÃO seleciona e prepara pessoas apaixonadas e
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Roda do Sacolão das Artes: a magia de estar juntos

Ainda é cedo para o início da Roda, que acontece toda às quintas-feiras, no Sacolão das Artes, um espaço que já virou referência em agitação cultural e social no Jardim São Luiz. Mas Geovane, 8, e Felipe, 10 já estão no local prontos para ajudar a montar o espaço de trabalho. Trazer o tapete, colocar os livros e, juntos ao voluntário João Pires, começar a diversão.

O primeiro sentimento que enche os olhos de quem assiste a essa Roda é a cumplicidade. Há uma atmosfera contagiante, que te prende e segura, atônito, paralisado diante do show que é a reunião do grupo.

Todos (re)descobriram o prazer de ler brincando. “Gosto de ler aqui porque tem gente para me explicar. Em casa eu me sinto muito sozinho”, conta Geovane. Uma das coisas que mais gosta quanto acontece na Roda é a encenação de peças criadas por eles.

Alison também adora ser ator. Contou que no último encontro ele era uma tartaruga, animal que ele gosta muito, pois acha sua casca engraçada. “Eu gostaria de trazer alguns amigos para participar comigo, porque é muito legal.”, diz.

A Roda começa com um aquecimento. Todos em círculo. O riso alto é o único som que há nesse momento. João pede a eles para fecharem os olhos e ver a imagem que está dentro da cabeça. O exercício é repetido por pelo menos três vezes. Felipe, 10, vê a mãe fazendo um piquenique para ele e os amigos. O momento é principalmente de troca.

Alguns lembraram a peça de teatro que assistiram no último sábado, 24, lá no Sacolão das Artes mesmo. Outros enxergaram o local que a Roda estava da outra vez, no centro do Sacolão. Teve um, inclusive, que viu a perna de uma barata!

Ainda durante o aquecimento, João pediu a todos para esfregarem as mãos. “Mais rápido, mais rápido, mais, mais e mais”, dizia ele. E eles esquentaram a mão dessa maneira e, em seguida passaram no peito, na barriga, coxa, joelho, tornozelo e pé. Essa parte é conhecida como “pé na terra e mão no céu”.

Outro ponto fantástico dessa Roda são os códigos pré-estabelecidos entre eles. Por exemplo: ninguém senta no tapete da Roda antes de tirar as “formigas”. Ou seja, enquanto estiver ainda muito agitado. E, para formar o grande círculo, os sapatos vão saindo um a um. Não é preciso falar, o grupo já sabe que isso é dos rituais do encontro.

Logo que todos sentaram, João pergunta o que há de diferente na Roda. Alguns arriscam palpites: “estão fotografando”, “não há livros no tapete”, “a Rayane faltou”. Após diversas tentativas, Alifer acerta: “a cor do tapete”. Nos primeiros encontros eles estiveram sobre um tapete verde que, hoje, havia sido trocado por um azul.

O mediador apresenta um livro de geografia. As crianças acham que vão ler algo a respeito, mas ele já transforma essa expectativa. “Hoje vamos estudar algo que tem a ver com geografia, mas não é”, diz João. Ele os leva até a última página do livro e mosta o que está escrito: Declaração Universal dos Direitos das Crianças.

Na frente de cada criança há um pedaço de papel amarelo virado para baixo. A dinâmica é de que um leia por vez. A escolha é feita por melodia: unidunitê salameminquê... Geovane é o primeiro e, em seu papel, lê: toda criança tem direito a ser socorrida primeiro em caso de catástrofe. “E o que isso significa?” pergunta João, abrindo para a discussão. Cada um coloca seus saberes até que seja estabelecido o entendimento de todos daquela frase.

E prossegue a sequência: Raira, Felipe, Alison, Hiran, Alifer e Geovane. Com falas engraçadas, algumas brincadeiras e, principalmente uma alegria contagiante. “Toda criança tem direito a...”, gritavam em coro. E, conforme a vez, cada um respondia o que estava escrito em seu papel.

Durante a discussão, um dos participantes compartilhou uma angústia. “Gostaria de ter mais amor do meu pai”, contou ela. Foi sua resposta à leitura do João, de que toda criança tem direito ao amor e compreensão por parte dos pais e da sociedade. Mas o voluntário mostrou que, mesmo de longe, também é possível amar.

Após a leitura de toda a “Declaração”, João propõe a construção de um cartaz sobre a Roda. “Não”, disseram eles. E trouxeram a proposta de um teatro, que representasse a solução para o problema de maus tratos infantis, já que a grande maioria tinha medo de apanhar.

E assim foi feito. Um deles decidiu ser Zeca, o menino que gostava de imitar o Michael Jackson e, por isso, era espancado pelos pais. Outro participante foi o pai dele, Zeca Baleiro, que era alcoólatra e não trabalhava. Já outro escolheu ser um conselheiro tutelar, e outro um policial. Uma das meninas foi a mãe de Zeca e outro ainda virou o apresentador do espetáculo.

Juntos, apresentaram o conflito, simularam a briga, dançaram como Michael e, por fim, resolveram o conflito. Zeca resolveu estudar mais e Baleiro decidiu se internar em uma clínica para tratamento do álcool.

Durante a avaliação da encenação, Felipe elogiou o grupo. “Foi muito legal, todos participaram sem gracinhas”, disse. Hiran concorda: “as pessoas fizeram sem se intimidar”. Juntos, então, organizaram uma força-tarefa para guardar todo o figurino utilizado e as bagunças fora do lugar. A Roda já tinha se estendido além do combinado.

João trouxe a bolacha, eles correram e sentaram-se à mesa. No olhar de cada um está a evidência do sucesso daquele dia. E você, leitor, esperamos ter vivenciado conosco mais uma bela Roda, na qual aprendemos um pouco mais. E o melhor, juntos!

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