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A Fundação BRASILCAMPEÃO seleciona e prepara pessoas apaixonadas e
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Encontro do cá dentro com o lá fora

por Deyse Carvalho

Muitas vezes a gente escuta um apelo lá das profundezas do nosso ser pra buscar num "lá fora" aquilo que o nosso "cá dentro" deseja viver. No meu caso, o apelo do "cá dentro" foi aumentando a cada ano, mês, semana, dia, hora, minuto... Parece simples perguntar: "Ué, qual o problema? Diz aí o que você quer encontrar e então, procura que acha." Simples e difícil tarefa, especialmente para alguém, que teve experiências muito marcantes de um "lá fora" hostil e nada interessado no meu "cá dentro".

Chega uma hora que cansa este apelo insistente ou a recusa em atendê-lo. Um dilema desses - um lá fora ruim ou um cá dentro ilusório, causava-me uma pressão que me obrigava a buscar respostas e a minha consciência foi ficando cada vez mais alerta, especialmente porque a pressão, por exemplo, me levou a obter a informação que a consciência sempre será um meio de manifestar a verdade de si para que se encontre com a realidade que se deseja ou merece.

Numa dessas ocasiões, percebi que meus sonhos noturnos freqüentes eram estar de olhos fechados ou semicerrados pelo sono. Queria acordar, mas nada me despertava. Fugir para o sono era o meu estado diário, pois meus sentidos ficariam desligados e ignorariam a pressão do chamado.

Depois, percebi que, além disso, tinha um hábito de andar olhando para o chão, em todos os sentidos. Assim é fácil olhar sempre entre o chão e o próprio umbigo e de vez em quando, pra espreguiçar, dar uma espiada no céu, nas pessoas, nas outras direções e sentidos. Cansei também dessa posição, percebi que não vivia bem assim e que por fim, o apelo não poderia ser tão falso: algo muito bom do mundo poderia se encontrar com algo bom em mim, algo que o apelo insistia em defender e eu, em não ver.

Aos poucos, fui levantando a cabeça para olhar à frente, com coragem de saber o que eu podia encontrar: não custa tentar, vou participar da vida. Em último caso, ao menos me restariam as lições e quem sabe, o silêncio definitivo deste apelo.

Então, um dia, vi um cartaz da fundação, chamando voluntários para o programa 1 milhão de rodas, num lugar comum, de passagem de milhares de pessoas por dia: num ônibus. Não me pareceu ser um desafio tão assustador, mesmo pensando na hipótese de ser julgada por não saber isso ou aquilo, não ter vivido isso ou aquilo como fatores de desqualificação. "Quais são os pré-requisitos?", perguntei, no entanto. "Vontade, disponibilidade." foi mais ou menos essa a resposta que recebi do pessoal de lá.

"Parece bom", pensei. As primeiras respostas não foram hostis, fui notada como pessoa e recebida. Parecia realmente valer a pena andar de cabeça erguida, olhando pra frente, no presente, desligada das marcas do passado e das ameaças ou anseios do futuro.

Os encontros que se sucederam desde a formação às rodas com os alunos da escola foram tão ricos quanto meu "cá dentro" dizia que seria. Era o apelo se encontrando com o chamado, como o encontro de duas pessoas destinadas a se amarem para sempre, espalhando o bem por todas as redondezas do reino, união celebrada e aprovada por todos.

Na medida em que encontrava a realidade que meu coração ansiava e para a qual me dispus a viver, fui despertando e vivendo a olho nu, sob o sol ou sob a chuva, o sonho de ser feliz e colaborar para um mundo melhor - sonho de ter um milhão de amigos, de ter uma família calorosa e amorosa, de ajudar a construir mundos melhores onde não havia sequer esperança (cheguei a sonhar em trabalhar na ONU!).

Os encontros com as pessoas da Fundação, colegas voluntários, alunos, colegas das escolas foram produzindo experiências cheias de harmonia, assim como com os educadores através dos livros. Eram diários: "Bem-vinda à Vida!", mesmo nos momentos de dificuldade que, no entanto, não me desanimaram ou adormeceram um minuto sequer, ao contrário, faziam-me ter mais e mais empenho em aprender o que fazer, em lutar para que os encontros idealizados se realizassem. Com prazer e com paixão. O esforço de ir conceber e desenvolvendo a existência e a coexistência, mostrava-se ato a ato, infinitamente melhor do que a esperança por um mundo perfeito dado por um passe de mágica.

A esse encontro, do "cá dentro" com o "lá fora", eu poderia chamar de desenvolvimento da vocação e percebo que as necessidades que combati na vida, desde que comecei a ouvir o apelo, somente seriam resolvidas pelo que nasci pra fazer: educar-me e educar.

Meu desenvolvimento acadêmico não é exemplar: fui aluna nota 10 durante o primário e no ginásio, meu desempenho foi caindo e meu rendimento escolar dali por diante sempre foi uma montanha russa: o empenho foi rareando em parte pela realidade hostil que me adormecia, em parte pelo meu equívoco de pensar que nascíamos determinados, acabados e nos restava dar o que tínhamos vivendo num destino traçado: experiências destinadas a acontecer conforme o tamanho da nossa estrela. Esperança? Só o de ser salva por um herói, que me transportaria magicamente para a realidade que eu queria viver.

Da mesma forma via de alguns de meus familiares, tantos sonhos e tão pouco deles em suas realidades. "Quem poderia salvá-los?" pensava eu, tentando abraçar as causas. Depois fui começando a perguntar: "Quem poderia ensiná-los a realizar?" E em busca de mestres, comecei a me perguntar: "Quem pode me ensinar?". Por fim, comecei a me perguntar: "O que posso aprender? Como?" e "O que posso ensinar?".

Todos os encontros que vivi por causa da Fundação, reensinaram-me a aprender, dispuseram-me a me encontrar com as pessoas, mostraram-me que até poderemos ter conhecimento suficiente para uma finalidade, mas a busca de proficiência vai enriquecendo o caminhar e o encontrar, fazendo laços, desfazendo nós, ou simplesmente dando mais corda, entremeando lindas estórias vivas, lindas estórias de amor.

É por isso que continuo lá: o sonho que vejo da Fundação Dixtal é fortalecer a vontade das pessoas em melhorar, aprender, acordar, viver, olhar pra frente, caminhar, encontrar e se deixar encontrar, viver os desafios do Agora. Desmontar o mecanismo fatalista de que uns nascem para brilhar e outros não, uns nascem para heróis e outros pra vilões, uns nascem pra serem felizes e outros pra sofrer. Isso tem tudo a ver com meu "cá dentro".

É por isso também que continuo no Octalles: porque desejo completar os ciclos de desenvolvimento não só com os alunos que fazem as rodas girarem comigo, mas com a comunidade em redor ligada à escola, descobrindo com eles seus sonhos comuns e aprender com eles como começar a realizá-los.

Bom saber que o caminhar não pretende ser perfeito, e sim, melhor a cada passo. Nem sempre ando de cabeça erguida, mas cada vez menos ando olhando pro chão ou para o meu umbigo. Pra nenhum de nós a aventura termina se nosso encontro terminar. Também eles não são meus heróis e eu, tampouco o sou pra eles: somos pessoas com vontade de despertar paixões, estar apaixonados e atendendo a vocação inata do ser humano de ser mais, como ensina Paulo Freire. E isso só se consegue com exemplo: para libertar é preciso ser livre.

Nossos encontros nutrem e fazem nutrir, irrigam e fazem irrigar, ajudam a crescer e estimular crescimento, frutificam, dão sombra e abrigo nos ligeiros descansos do caminhar. Não é perfeito e não pretende ser: é um crescendo, vivendo, vindo a ser, harmoniosamente.

Isso tem tudo a ver com meu "cá dentro" que continua me dizendo, destas terras por onde tenho andado e sobre estas gentes que tenho encontrado: "Sabe ali? olha adiante: agora, vamos...".

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